28/12/2018

Uma frota em movimento

Veículos elétricos e híbridos desafiam o país a planejar logística para carros verdes.

O Brasil possui cerca de 5 mil veículos elétricos ou semielétricos (híbridos) em uso (0,001% da frota nacional). Destes, somente 250 unidades são exclusivamente elétricas. A frota mundial de veículos elétricos ultrapassa 3 milhões, crescendo a uma razão de mais de 55% ao ano segundo o Centro de Pesquisa em Energia Solar e Hidrogênio de Baden-Württemberg (ZSW), na Alemanha. A visão de uma nova geração de investidores aliada
às pressões ambientais explicam o aumento. No início de fevereiro, a ONG Greenpeace mobilizou o Reichstag alemão para pedir o banimento de veículos de passeio a diesel, que representam 40% da frota europeia.

Até 2030, estima-se que a frota de veículos elétricos e híbridos corresponda a 10% da frota mundial. Um ícone desse mercado, o Toyota Prius, já conta com 6 milhões de unidades em circulação no mundo. Alguns exemplares podem ser vistos em grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, se você tiver a sorte de pegar um “táxi verde”.

Energia elétrica

O Brasil possui uma das 10 maiores frotas automotivas do mundo, com cerca de 50 milhões de veículos. Se, por um exercício de imaginação, toda ela fosse convertida de uma só vez para a matriz elétrica, o impacto no consumo energético seria muito pequeno, afirmam especialistas. “Na hipótese de chegarmos a 4 milhões de veículos elétricos no Brasil, isso representaria um aumento de apenas 1,62% da demanda nacional por energia”, compara Ricardo Guggisberg, presidente da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). “A recarga é feita à noite, fora dos horários de pico”, justifica.

Para outro especialista, a barreira mais difícil de ser vencida é a cultural. “Há um receio exagerado do potencial comprador de carro elétrico de ficar desabastecido”, diz Rodrigo Almeida, vice-presidente da Associação Brasileira dos Proprietários de Veículos Inovadores (Abravei). “A instalação de eletropostos e pontos de abastecimento resolveria a questão”, acredita. Outros segmentos também se beneficiariam do investimento. “O crescimento da frota de veículos elétricos estimula a implantação de sistemas geradores de energia limpa, como fotovoltaica (solar) e eólica”, afirma.

Autonomia e custo de circulação

Os deslocamentos da maior parte da frota mundial são essencialmente urbanos e de curta distância (54 km), aponta a Anfavea (Associação Brasileira dos Fabricantes de Veículos Automotivos). Os veículos puramente elétricos possuem autonomia para rodar entre 120 km e 200 km. Os híbridos, com a combinação do uso de combustível e da geração de energia pelo sistema KERS (sistema de recuperação de energia cinética), rodam cerca de 1.000 km. Abastecer um carro elétrico custa hoje em média R$ 0,12/km. Na capital paulista, por exemplo, o usuário gasta entre R$ 10 e R$ 16 por uma carga completa. Postos de combustíveis e até as redes de shopping Multiplan e Iguatemi e o Pão de Açúcar oferecem pontos de recarga. 

Estudos do Idaho National Laboratory (INL), um dos maiores centros de pesquisa de veículos inovadores, apontam que 80% das recargas da frota convencional (passeio) acontecem em casa ou no trabalho. Segundo o INL, ao voltar ao ponto de partida, os veículos elétricos ainda dispõem de metade da carga, desfazendo o mito do “desabastecimento”. 

Os pontos de abastecimento elétrico já atendem rodovias. O primeiro deles foi instalado em 2015 pela CCR no quilômetro 67 da Rodovia Anhanguera, em Jundiaí, para apoiar deslocamentos entre São Paulo e Campinas, a partir de uma parceria com a CPFL. No ano passado, a Rodovia dos Bandeirantes, também administrada pela CCR, ganhou um ponto de carregamento no sentido oposto, em direção à capital, viabilizando assim viagens de carros elétricos nos dois sentidos.

Itaipu na vanguarda de pesquisa de veículos 100% elétricos 

Dez anos atrás, a Itaipu Binacional e a empresa suíça KWO (Kraftwerke Oberhasli AGO) se uniram para criar o Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Montagem de Veículos Elétricos (CPDM-VE). Hoje, além de fabricantes automotivos como Fiat, Renault, Agrale e Iveco, participam empresas de carrocerias, acumuladores e outros componentes automotivos.

Marcio Massakiti Kubo, coordenador de Pesquisa e Desenvolvimento do CPDM-VE ressalta uma grande mudança de trabalho ao longo dos anos. “Havia no início uma preocupação ambiental muito forte, mas entendemos rapidamente a importância do aspecto tecnológico”, diz Kubo. O veículo elétrico pode dobrar o desempenho de movimento em relação a um veículo movido a combustível fóssil. “Quando se refinam 100 litros de óleo cru, apenas 15% dessa energia se transforma em movimento motor. O resto (85%) é desperdiçado na forma de calor e poluição. Esse cálculo é o que chamamos de análise well to wheel, ou seja, do poço à roda”, diz. “Apenas por hipótese, se queimássemos os mesmos 100 litros numa termelétrica para consumo em veículos elétricos, a conversão em movimento subiria para 40%, mais que o dobro. Se usarmos matriz hidrelétrica, os benefícios seriam ainda maiores”, explica Kubo.

Este é justamente o salto tecnológico desejado por institutos de pesquisa e centros como o CPDM-VE: transformar energia na maior quantidade de eficiência de movimento. Para isso, são feitos investimentos em testes com novas baterias, como de cloreto de sódio. A maior parte das baterias produzidas hoje é de lítio, com baixa eficiência e risco de combustão. 
Além disso, atualmente as baterias possuem uma vida útil considerada muito baixa. Baterias de carros puramente elétricos têm vida útil de 1.000 ciclos, pouco mais de 100 mil quilômetros, considerando-se uma autonomia hoje entre 120 e 200 km por carga. 

A frota de Itaipu possui hoje dois tipos de veículos. Há veículos de linha produzidos por montadoras, como Fiat 500e, os Renault Twizy e Fluence, o compacto Zoe e um Mitsubishi Outlander Híbrido. Esses veículos recebem pequenas modificações visando melhoria do desempenho. Outros foram inteiramente montados em Itaipu a partir de kits fornecidos por fabricantes. Há modelos Pálio Weekend, o utilitário Iveco Daily, Agrale Marruá e duas versões de micro-ônibus elétrico híbrido com etanol. No total, Itaipu possui uma frota de cerca de 100 veículos elétricos e híbridos. Há grande diferença na forma de recarga dos veículos, trifásica, monofásica e de carga rápida.

Marcio Massakiti explica que veículos puramente elétricos apresentam peso proporcional ao de veículos a combustão. O peso extra das baterias é compensado com a retirada do motor e de outros componentes desnecessários na versão elétrica. Porém isso exige uma nova dinâmica de distribuição no projeto de suspensão. As baterias geralmente são posicionadas no assoalho do veículo, melhorando o centro de gravidade do carro.